Conto – Maldição nos Ares

MALDIÇÃO NOS ARES

Finalmente chegara as férias de Mark. Trabalhara feito um condenado para entregar suas atividades durante 11 meses seguidos, fazendo hora extra e sob constante pressão para cumprimento das metas.

Depois de tanto esforço e dedicação, o rapaz se sentia orgulhoso e merecedor de uma viagem onde poderia revigorar sua disposição e se animar para os próximos árduos meses de trabalho quando voltasse.

Como já era de costume, planejara suas férias com antecedência e já havia comprado uma passagem para a Noruega onde passaria o mês  conhecedo a cultura nórdica, pela qual era apaixonado. Todos os preparativos da viagem estavam prontos: hotéis reservados, passagens de trem em mãos, tickets para museus e outras atrações turísticas comprados. Faltava somente bater o ponto, ir para a casa, terminar de fazer a mala e correr para o aeroporto.

Mark se despediu de seus colegas de trabalho, correu para o estacionamento, pegou o carro e partiu pelo mesmo caminho que percorria diariamente para voltar para sua casa. Porém, dessa vez, contava com o ânimo das férias, para se sentir mais motivado em lidar com a merda do engarrafamento rotineiro.

Ligou o rádio na estação de rock e percorreu o caminho com tranquilidade.

Em uma hora (menos tempo que normalmente levava) chegou em sua casa. Escovou os dentes, penteou os cabelos, revisou todos os itens de viagem, guardou o passaporte, fechou a mala e saiu de casa. Ainda faltavam 5 horas para o horário de seu voo, então estava tranquilo e despreocupado.

Guardou a mala no porta malas, deu partida no carro e saiu de casa. Como ainda havia tempo, resolveu dar uma passada na padaria ali perto para tomar um café e comer um grude qualquer. Afinal, sua última refeição fora o almoço e já eram 19:30h.

Pediu um sanduíche americano (presunto, queijo derretido, ovo frito, alface e tomate) e um copo de café coado que estava com gosto de meia usada. Como a fome era grande, conseguiu engolir a desgraça facilmente.

Meia hora depois, estava pronto para voltar à sua empreitada. Pagou seu lanche, agradeceu à garota simpática do caixa e saiu caminhando até seu carro. Quando acionou o botão para destravar o carro, percebeu que não havia resposta alguma, como se estivesse com a bateria descarregada.

Resolveu abrir a porta utilizando a chave. O alarme, que deveria ter disparado, não disparou. Mark colocou a chave na ignição e tentou dar partida, mas a caranga não emitiu sinal de vida, deixando claro que a bateria havia partido para outro plano astral.

Envolto em raiva e fúria, Mark saiu do carro e bateu a porta do piloto com toda a força. Sacou o celular do bolso e ligou para a companhia de seguro. Na primeira tentativa, após um bate papo saudável com um robô e mais 5 minutos de espera, a linha caiu. Na segunda tentativa, a atendente de voz anasalada, profissional em leitura de scripts e humor questionável, direcionou o chamado para o setor de guincho e emergências. Novamente caiu a ligação. Nessa hora, Mark já havia aparado todas as unhas de sua mão esquerda com seus dentes e cuspido os filetes em cima do capô do carro. Na terceira tentativa, Mark entrou em estado de loucura, gritou com a URA e maltratou a atendente (mais tarde acabara ficando com remorso). Finalmente conseguiu falar com o setor de guincho. O atendente, com uma simpatia mais honesta que a atendente anterior, falou para Mark que mandaria um motoboy com uma bateria nova. Mark agradeceu, desligou e ficou aguardando.

Havia levado meia hora para conseguir que fosse atendido pela seguradora. Seu coração já estava palpitando na garganta com medo de perder o voo. Até chegar ao aeroporto, levaria 1h 40m, sem trânsito. Ainda havia tempo de sobra, porém o rapaz gostava de chegar com antecedência em seus compromissos. Principalmente se tratando de um voo que havia lhe custado os olhos da cara.

Mais uma hora havia se passado quando o rapaz da seguradora chegou em sua moto de ouro. O capacete se parecia com uma coroa de rei. O rapaz desceu da moto desenrolando um tapete vermelho enorme e caminhou em direção à Mark. Luzes celestiais acompanhadas de um coral angelical surgiram para iluminar o caminho.

Na verdade, o rapaz era um baixinho roliço com sobrancelhas casadas e grossas. Barba por fazer, nariz enorme e um sorriso esburacado. Em um dos buracos frontais, um toco de cigarro aceso envolto em baba.

Entretanto, a felicidade de Mark era tanta, que a figura bizarra do baixinho havia se transformado em um nobre cavaleiro que carregava uma espada medieval (na verdade era somente uma chave de boca).

O rapaz era simpático e gentil. Em 20 minutos trocou a bateria e o carro voltou à vida. Mark pagou o valor da bateria e acrescentou mais vinte reais de gorjeta para o rapaz, que ficou muito agradecido.

Com a sensação de carro novo, Mark acelerou fundo e correu para o aeroporto. Pegou engarrafamento e levou 2h 30m para chegar. Desesperado com o tempo, estacionou no próprio aeroporto sabendo que teria que pagar uma fortuna de hospedagem do carro na volta.

Faltando apenas 40 minutos para seu voo partir, Mark correu até o balcão da companhia aérea para despachar sua mala. Chegou bufando e caçando ar puro para seus pulmões que se fechavam por conta da maldita asma. Não havia mais ninguém na fila. Até mesmo no aeroporto haviam poucas pessoas.

Após borrifar duas vezes sua bombinha de asmático, seu pulmão voltara ao “normal”. A funcionária da companhia aérea, uma velha decrépita e mal humorada, encarou Mark com o lábio inferior torto e as narinas dilatadas como se cheirasse o próprio peido.

“Boa noite…”, disse a velha com cara de poucos amigos.

Mark respondeu com outro boa noite, colocando seu documento e o bilhete do voo sobre o balcão.

A velha tinha uma franjinha e um coque. A pele do rosto lotada de rugas e pó de maquiagem em uma tentativa frustrada de disfarçar os longos anos de fumo. Usava um batom rosa choque nos minúsculos lábios rachados que cobriam os dentes escurecidos. Não ousava sorrir, pois tinha receio de assustar ao invés de simpatizar.

Após pesar a mala e receber seu ticket, Mark agradeceu à velha moribunda (que não ousou esboçar simpatia) e deu as costas em direção ao embarque.

“O embarque é no portão 40, em 10 minutos! Corra!”, gritou a velha com voz desafinada e tom repressor.

Mark, que já havia caminhado alguns passos, acenou para a velha agradecendo novamente. Chegou até o local de embarques internacionais, passou rapidamente pela revista e pela imigração, locais que também estavam estranhamente desertos. Cruzou pelas lojas Duty Free, virou à direita no corredor e correu em direção ao portão 40 (que por sinal era o último do corredor).

Conforme passava pelos demais portões de embarque e se adentrava no corredor, Mark notou que as luzes do local estavam começando a se intercalarem, de maneira que duas fileiras estavam acessas e uma fileira apagada. Continuou correndo: portão 26… uma fileira acessa e uma apagada, portão 30… uma fileira acessa e duas apagadas, portão 34… uma fileira acessa e três apagadas. Nesse momento, o local já havia escurecido quase que por completo. Mark ouvia somente os barulhos de seus sapatos contra o chão: Toc, toc, toc, toc…

No final do corredor, havia um pequeno balcão com um comissário e uma porta aberta que dava acesso ao avião. Acima do comissário havia uma única lâmpada iluminando o local. Mark teve um calafrio com a cena, mas logo se recompôs, pois estava com a adrenalina à flor da pele e não via a hora de entrar logo no avião.

“Boa noite senhor!”

O garoto devia ter uns 25 anos de idade. Sotaque carregado e sorriso forçado. Provavelmente estava de saco cheio por ficar tanto tempo parado naquele lugar deserto.

Mark lhe entregou a passagem e o passaporte. O rapaz destacou rapidamente o código de barras da passagem, fingiu olhar para o passaporte e lhe devolveu, dizendo:

“Tenha um bom voo!”

Mark agradeceu e passou pela porta.

Nesse momento, uma sensação de alívio invadiu o corpo do rapaz. O sentimento de desespero se transformara em emoção misturada com ansiedade e uma leve dor de barriga.

Após alguns passos sobre a plataforma, um barulho alto ecoou às suas costas. O comissário fechara a porta de embarque. No mesmo momento, as luzes da plataforma começaram a piscar vagarosamente e o barulho de seus passos ecoaram sob o chão de metal.

A dor de barriga virou uma enorme nuvem de gás que saiu lentamente e inaudível pelo seu orifício traseiro. Para sua sorte, além de inaudível, o peido fora também inodoro.

Enfim, chegara ao avião. Na entrada fora recepcionado por uma aeromoça com sorriso estático e viciado. Penteado imóvel e endurecido com laquê.

Embora o uso excessivo de cosméticos e produtos de beleza, a garota era jovem e bonita. Uma norueguesa de olhos bem azuis e pele sedosa.

“Boa noite Sr. Seja bem-vindo!”, disse a garota em um inglês com sotaque carregado.

Mark retribuiu a gentileza e mostrou seu bilhete à garota. O bilhete indicava a poltrona número 11, na classe executiva. O rapaz tivera sorte de conseguir por mais 100 dólares, um upgrade para a classe executiva no momento que fora fazer o check-in online no site da companhia aérea.

A aeromoça apontou para a direção esquerda de Mark, pedindo que se dirigisse à sua poltrona. Logo em seguida, fechou as portas do avião, dando encerramento ao embarque.

Ao abrir a cortina do corredor que dava acesso à classe executiva, Mark se deparou com um local praticamente vazio. Somente a poltrona número 1 estava ocupada. Mark só pode ver a parte de trás da cabeça dessa pessoa. A cabeça estava coberta por um manto preto, como se fosse uma freira.

“Boa noite!”, disse Mark de longe, procurando ser agradável.

A suposta freira ficou parada,  completamente imóvel, ignorando a existência do rapaz.

Mark deu de ombros, se sentou em sua poltrona e a reclinou até suas pernas ficarem esticadas e as costas levemente curvadas.

Pediu um copo de água no momento em que a aeromoça está passando no corredor. A garota gesticulou positivamente com a cabeça, sorrindo.

Deu uma profunda respirada tentando relaxar. Olhou pela janela, observando os veículos utilizados para transportar as malas se movimentando vazios pelo aeroporto. Tomou um pequeno susto quando inesperadamente a aeromoça colocou um copo de plástico cheio de água em sua frente.

Mark pegou o copo de plástico da mão da garota que estava sorrindo um sorriso estático, porém simpático. Sorriu em retribuição.

Colocou a mão no bolso do paletó e retirou um comprimido que havia guardado antes de sair de casa. O objetivo do rapaz era dormir o quanto antes e o máximo que conseguisse. Munido com um calmante que havia pego em seu estoque medicinal do armário do banheiro, Mark colocou o comprimido na boca e virou o copo d’água.

Pegou seu celular, conectou os fones e encaixou nos ouvidos. Deu play no áudio book “Tommyknockers” de Stephen King, onde já havia escutado grande parte em noites anteriores. Fechou seus olhos, ignorando completamente a coitada da aeromoça que ficou gesticulando como inflar o colete salva vidas em casos de pousos de emergência no mar.

Pegou num sono profundo, sem sonhos, exatamente à 01:00 AM.

Haviam se passado 11 horas de voo, quando Mark acordou com um grito alto e feminino vindo da parte de trás do avião, na classe econômica. O rapaz ainda estava dopado pela forte dose de calmante e abria seus olhos com dificuldades. Sua vista ainda estava embaçada e tremida, como se estivesse bêbado.

A princípio, Mark não se dá conta de que havia acordado, tanto que seus olhos voltavam a se fechar. Achava que o grito fora parte de algum sonho.

Quando um segundo grito mais alto aconteceu em seguida, Mark deu um salto de sua poltrona e se levantou prontamente, olhando assutado em direção à classe econômica.

Com a mente em alerta, olhou ao seu redor e percebeu que estava sozinho. A suposta freira não estava mais no lugar que ele havia visto quando entrou no avião. Na verdade não havia sinal de ninguém no local. Um grande silêncio pairava no ar, a não ser pelo barulho das turbinas do avião. Do lado de fora, o céu era escuro. A cortina que dava acesso à classe econômica estava fechada, e no carpete azul, logo em frente à cortina, havia um líquido negro respingado. De onde estava, Mark não conseguia identificar do que se tratava esse líquido. Se virou para trás em direção à cabine do piloto e notou que a porta branca de acesso estava aberta e com manchas de algo que se parecia com sangue escorrendo. Seu coração começou a bater mais forte e uma sensação fria correu repentinamente pelo seu corpo.

Respirou fundo, buscando coragem para se mover e resolveu verificar a situação da cabine do piloto. Caminhou lentamente pelo corredor se apoiando nas bordas das poltronas vazias. Ao chegar na posição onde a freira estava sentada, encontrou uma caixa de madeira sobre o assento. A caixa possuía um aspecto extremamente antigo. A madeira bem escura, com tonalidade do ébano africano, já bem desgastada pelo tempo. O rapaz se sentou na poltrona, colocando o objeto em seu colo. Abriu vagarosamente. Encontrou uma pilha de fotografias antigas, em preto e branco, que datavam entre 1900 e 1950. A primeira delas é uma família: pai, mãe e mais 4 filhos (2 meninas e 2 meninos). Mark verificou o verso e percebeu que havia uma anotação em caneta tinteiro com uma escrita rústica: “Família Park”. As fotos estavam ordenadas por data. Da mais antiga até a mais atual.

Mark foi folheando as fotografias amareladas e consultando os versos:
– Daniel Park, 1 ano de idade.
– Emily Park, 3 anos de idade.
– John Park, 7 anos de idade.
– Linda Park, 10 anos de idade.

As últimas fotografias eram da mesma pessoa, com a idade avançando ao longo do tempo: a garota Emily Park.

Em sua última foto, Emily estava vestida com um hábito preto de freira, olhava fixamente para a frente, com os olhos completamente brancos e extremamente arregalados. A pele era pálida e enrugada. Alguns pelos escuros se sobressaíam sobre suas bochechas chupadas. Os lábios fechados, completamente rachados e definhados. O nariz pontudo com as narinas dilatadas repletas de pelos. No verso da fotografia, a seguinte frase: O último dia de Emily Park. Pela data escrita no verso, Emily estaria com 47 anos na época, mas aparentava uns 70.

Intrigado, Mark pegou essa última fotografia e a guardou no bolso da frente de seu paletó. Fechou a caixa de madeira e a colocou sobre a poltrona novamente. Levantou-se e dirigiu-se à cabine do piloto, que se encontrava logo à sua esquerda.

Piloto e co-piloto encontravam-se deitados no chão, de barriga para cima. O local era apertado e os corpos estavam espremidos lado a lado, atrás das poltronas. Os olhos das vítimas haviam sido arrancados,  sobrando somente a escuridão das órbitas. Embora houvesse um jato de sangue na porta da cabine, o local estava estranhamente “limpo”. Os corpos estavam ressecados e não pareciam ter uma gota de sangue para contar história. Os pescoços possuíam pequenos rasgos dos lados formando um círculo ao redor dos pomos de Adão. Parecia que alguma boca enorme, cheia de dentes pontiagudos, havia mordido os pescoços dos rapazes e sugado todo o sangue.

Mark observou a cena boquiaberto. Seu estômago se revirou e vomitou instantaneamente no carpete, deixando um cheiro azedo no ar. Piscou seus olhos algumas vezes e estalou um leve tapa no próprio rosto com a esperança de acordar de um pesadelo, mas a realidade permaneceu à sua frente. Limpou a boca vomitada com as mangas do paletó, imaginando que não faria diferença manter seus modos diante da situação atual. Virou sua cabeça em direção aos painéis de controle e percebeu uma mensagem em uma das telas indicando que o piloto automático estava acionado. Em outra tela, uma outra mensagem com o tempo restante de voo até o destino: 3 horas e 45 minutos.

O céu começou a clarear do lado de fora do avião. O rapaz se espantara com a vista. Nunca tivera a ideia de visitar uma cabine de avião. Sentiu uma dose de adrenalina e uma leve sensação de vertigem ao mesmo tempo.

Com a crença de que o avião estava seguro no piloto automático, Mark voltou para a sua poltrona, pensando em averiguar a situação da classe econômica. Na classe executiva haviam duas poltronas grandes de cada lado. Já na classe econômica, duas poltronas espremidas de cada lado e mais quatro poltronas (mais espremidas ainda) no meio, formando dois corredores. As classes eram separadas por uma cortina de pano azul escuro. No final de cada classe, antes das cortinas, uma mini cozinha com os típicos carrinhos de alimentos que as aeromoças utilizam para servir bebidas, refeições e petiscos.

Mark chegou até a mini cozinha e encontrou uma gaveta repleta de talheres. Resolveu pegar uma faca pontuda, de péssima qualidade, com o intuito de se defender de seja lá o que estivesse à sua espera do outro lado da cortina.

O rapaz abriu a cortina lentamente, fazendo o mínimo de barulho possível. As desejadas primeiras poltronas da classe econômica, onde os passageiros podiam gozar de um espaço maior para as pernas, estavam todas ocupadas por cadáveres de aparências semelhantes aos corpos do piloto e co-piloto na cabine. Os corpos estavam dispostos de uma maneira estranhamente ordenada: um encostado ao ombro do outro. As órbitas sem olhos, ressecadas e vazias. O ambiente estranhamente limpo, exceto por poucas gotas de sangue ao redor dos corpos.

Haviam poucas pessoas no local. Algo em torno de quinze indivíduos. Treze deles estavam mortos da mesma maneira: corpos ressecados, sem os olhos e encostados uns sobre os outros. Mark olhou para o fim do corredor e notou um ser de costas, agachado no chão, usando vestimentas de freira. No mesmo momento, o rapaz associou aquele ser com a freira que estava sentada nas primeiras poltronas da classe executiva. Pegou a fotografia antiga que guardou no bolso do paletó e a comparou com aquela figura que estava agachada de lado, com uma bocarra aberta sobre o pescoço da simpática aeromoça, sugando cada gota de sangue de seu corpo. As pernas da garota ainda se debatiam demonstrando seus últimos espasmos de vida.

Um calafrio percorreu as costas de Mark. Seus pelos do corpo ficaram totalmente arrepiados. A cena era grotesca e surreal. Suas mãos começaram a suar de uma maneira que a faca cega e estúpida começara a escorregar. Caminhou lentamente para trás, andando de costas, sem conseguir tirar seus olhos daquela cena brutal.

O ser continuava seu banquete. Parecia que a freira Emily Park havia se transformado em um animal abominável. O corpo repleto de pelos saindo pelos orifícios do hábito. As mãos peludas, com dedos compridos e unhas enormes que se pareciam com garras. Por baixo da vestimenta, a barriga possuía um grande volume pelo tanto que a fera já havia se alimentado. A fera termina de sugar todo o sangue de sua vítima. Para finalizar, espetou uma de suas garras em um dos olhos, arrancou e comeu como se fosse a sobremesa. Logo em seguida fez o mesmo com o outro olho.

Estranhamente, um passageiro ainda estava vivo. Dormindo de boca aberta, e usando fones de ouvido. O sobrevivente não acordara durante a chacina que ocorrera bem ao seu redor. Assim como Mark antes, o sobrevivente estava dormindo e o animal/freira parece não ter notado sua presença.

Mark rapidamente associou que aquele ser abominável era cego. Ainda mais que seus olhos eram completamente brancos conforme a foto que o rapaz furtara.

O animal peludo se levantou e ficou sobre suas pernas (ou patas traseiras?), emitiu um uivo alto e feroz que fez com que Mark levasse as mãos aos ouvidos. Seu corpo era enorme. Cerca de 2,00m de altura, batendo com a cabeça sobre o teto da aeronave. Após seu uivo horripilante, a fera virou para o outro lado e começou a vomitar litros e mais litros de sangue em cima do único passageiro dorminhoco sobrevivente da classe econômica. Um jato de vomito vermelho escuro entrou diretamente dentro da boca do rapaz que dormia boquiaberto e  tranquilamente num sono profundo, provavelmente ocasionado por uma bela tarja preta. O rapaz, que era baixinho, careca e com formato roliço, acordou assustado e desesperado como se estivesse se afogando em um mar de sangue. Tentou emitir um grito e acabou re-vomitando todo o sangue que havia engolido. Em questões de segundos, o ser assustador, levantou suas garras com unhas escuras e afiadas e arrancou fora a garganta do gordinho com um único golpe.

Mark se assustou com a cena e começou a andar de costas buscando se esconder de alguma forma daquela besta abominável. Assustado e completamente desnorteado, esbarrou no maldito carrinho de bebidas que tomba, emitindo um barulho alto e caótico.

A fera reagiu instantaneamente ao barulho e encarou Mark que começou a tremer de medo com a imagem assustadora da besta. Mesmo sem poder enxergar, a freira passou a focar seu olfato e sua audição na direção de Mark. O monstro começou a caminhar lentamente de quatro na direção de Mark. Babava e rosnava com um tom ameaçador. A fera começava a preparar seu bote na presa indefesa.

Mark, congelou de medo e não conseguiu se mover. A única coisa que conseguia pensar é que iria morrer dilacerado por um monstro que não deveria ser real.

A fera deu um pulo sobre Mark que estava caído no chão. Embora estivesse morrendo de medo com a situação, Mark não emitiu nenhum som. Ficou parado e congelado, esperando ser devorado pela fera debruçada sobre ele, que cheirava seu rosto e esbaforava o odor da morte em seu nariz.

Num ato espontâneo, misturado com o extinto de sobrevivência, Mark pegou sua faca cega e a espetou com força no meio da mandíbula do monstro que deu um pulo assustado emitindo um grito meio humano, meio animal. Mark aproveitou que a fera se afastava e levantou correndo em direção à cabine do piloto. A fera, desnorteada, distribuía golpes instintivos no ar e um destes,  acabou acertando a panturrilha de Mark, abrindo fendas profundas que começaram a jorrar sangue. Mark soltou um urro de dor e caiu de cara no chão, agonizando.

Com a centelha de força que lhe restou, Mark se arrastou pelo chão em direção à cabine. Em um último impulso, conseguiu se levantar e se atirar para dentro, caindo em cima do cadáver do pobre piloto. Deitado, agonizando de dor, fez um último esforço para chutar a porta que se trancou automaticamente ao se chocar com a tranca.

A fera correu em direção à cabine, esbaforida, galopava como um cavalo de corrida e chocou o fucinho na porta da cabine. Explodindo em fúria, começou a arranhar a porta com suas garras cortantes.

Mark sabia que não teria muito tempo até que a porta fosse derrubada pela fúria da besta e por um momento chegou a lembrar da história dos três porquinhos e se sentiu como um porco indefeso se abrigando em sua casa de palha que poderia desabar apenas com o sopro da morte do lobo mau.

Olhou para os lados procurando algo que serviria de arma para se defender. Tentou abrir todos os tipos de compartimentos acreditando que o piloto tivesse uma arma para casos de emergências. Não encontrou absolutamente nada.

Mark começou a chorar, enquanto a porta foi se desfazendo e a fera conseguia cada vez mais acessar a cabine. Se lembrou de sua vida, seus amigos e amores. Sua família. Seus erros e seus acertos.

Em seus últimos minutos de vida, sabia o que deveria fazer.

Se sentou heroicamente no banco do piloto e desligou o piloto automático. Vislumbrou o belo nascer do sol enquanto a aeronave perdia altitude e se dirigia até uma linda cordilheira coberta de neve. Respirou fundo e pensou que era uma bela visão para o fim.

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